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Ei, preta. Eu sei por que você não vai pra academia


Eu sei por que você não vai pra academia, e não, não é preguiça, nem falta de força de vontade, nem “não gosto desse ambiente”


A real é que nós, mulheres negras, fomos ensinadas a cuidar de tudo e de todos. Menos da gente. A gente nasce com um checklist invisível: cuidar do filho, do marido, da casa, da mãe, do mundo… e, se sobrar tempo, quem sabe, cuidar do próprio corpo. Academia, nesse roteiro, vira quase um pecado capital. “Gastar dinheiro com isso?” “Perder tempo com isso?” Como se saúde fosse luxo e autocuidado fosse descartável.


Fui atravessada por uma pesquisa que colocou em números uma dura realidade. Apenas 33% das mulheres negras no Brasil se exercitam regularmente. Não sou eu que estou dizendo, é o Check-up de Bem-Estar 2025. Entre mulheres brancas, o número sobe pra 42%. Ou seja: não é falta de consciência individual. É excesso de estrutura trabalhando contra nós mulheres, em especial negras.


E convenhamos, a academia não faz questão nenhuma de parecer convidativo. A estética é clara: corpos magros, brancos, definidos, suados na medida certa. Tudo muito asséptico, muito performático, muito “corpo ideal”. Aí chega um corpo negro, curvilíneo, gordo, diverso… e pronto. O ambiente muda. 


O olhar pesa. 


O silêncio julga. 


E tem mais. O corpo da mulher negra nunca é só um corpo. Ele é sempre “demais”. 

Curva demais. Bunda demais. Coxa demais.


E aí colocar uma roupa de academia vira um dilema existencial. “Tá curto demais?” “Tá chamando atenção?” “Tá vulgar?” Não, não tá. O problema não é a roupa. É o racismo sexualizado que insiste em nos vigiar até no agachamento.


O lugar ecoa: Você não pertence a esse espaço.


Os dados escancaram isso. Só 27% das pessoas pretas e pardas estão satisfeitas com a própria saúde física. Na saúde financeira, a coisa piora: apenas 30% das mulheres negras avaliam positivamente sua situação financeira, contra 44% das mulheres brancas. Falta tempo, falta dinheiro, falta rede de apoio. O bem-estar, no Brasil, tem CEP, cor e classe social.


Preta, ir pra academia, pra nós, nunca foi só sobre exercício. 


É sobre enfrentamento. É reconhecer a importância de cuidar de você acima de tudo. É reconhecer a sua beleza e a importância de cuidar do seu corpo como um grande aliado.


Se você deseja ser poderosa, potente no que faz, ser conhecida, amada e respeitada, cuidar do seu corpo é um passo importante para materializar o seu sucesso.


Eu sou mulher negra e sei o quanto ocupar dói. Exige força. Às vezes coragem. Às vezes raiva. Às vezes só teimosia mesmo.


Vá sozinha. Vá com uma amiga. Vá com fone no ouvido, cara fechada e coluna ereta.


Encontre uma atividade que te dê prazer, não punição. E, principalmente, não desista no primeiro desconforto. Ele não é um sinal de que você está errada, é um sinal de que você está no lugar certo e deu o primeiro passo.


Porque cada mulher negra dentro da academia é um erro no sistema.


Então, preta, vai.


Com tudo o que você é.


Porque cuidar de si, pra nós, sempre foi um ato revolucionário.


Preta, vá pra academia.


 
 
 

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