Do esporte ao empreendedorismo: competências que atravessam diferentes jornadas
Lucas Lima*
Quando começamos a falar sobre empreendedorismo com atletas, surgiu uma provocação: será que a trajetória de quem constrói uma carreira no esporte é tão diferente da de quem constrói um negócio?

Nas duas primeiras Masterclasses**, essa pergunta abriu espaço para uma construção muito rica. Mais do que apresentar conceitos, buscamos reconhecer competências já desenvolvidas pelos atletas e compreender como esse repertório pode apoiar negócios, geração de renda e novas possibilidades.
A literatura acadêmica reforça essa conexão. Vidal-Vilaplana, González-Serrano e Crespo-Hervás (2025), em estudo com atletas de elite, identificaram resiliência, criatividade e proatividade entre as competências associadas à intenção empreendedora. Massiera e Bourse (2026) destacam disciplina, perseverança, gestão do estresse, orientação para objetivos e adaptabilidade como competências transferíveis do esporte para outros contextos profissionais.
Isso sustenta uma das principais reflexões das Masterclasses: o atleta não começa do zero para empreender. Ele já carrega experiências, relacionamentos e aprendizados acumulados durante anos de preparação e competição.
Disciplina, resiliência, foco, trabalho em equipe, comunicação, adaptação e tomada de decisão são soft skills desenvolvidas continuamente no esporte. Muitas delas também aparecem entre as competências mais valorizadas pelo mercado. O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, destaca pensamento analítico, resiliência, flexibilidade, liderança e criatividade entre as competências centrais para o futuro do trabalho.
Mas ser atleta não transforma automaticamente alguém em empreendedor. Essas competências precisam ser complementadas por hard skills como finanças, vendas, marketing, negociação, tecnologia, gestão e modelagem de negócios. Massiera e Bourse (2026) mostram que atletas em transição podem enfrentar lacunas de conhecimento empresarial, redes restritas e dificuldades de acesso a recursos.
Outro ponto foi a relação entre resiliência e aprendizado. No esporte, derrotas, lesões e mudanças de estratégia fazem parte da jornada. No empreendedorismo, uma hipótese pode falhar, um produto pode não ser aceito ou uma estratégia comercial pode não gerar o resultado esperado. Parafraseando o consultor de inovação Vinny Machado: “Invalidar também é validar”. O valor está em aprender com a evidência e decidir o próximo movimento.
Essa lógica se aproxima da teoria da effectuation, de Saras Sarasvathy (2001), segundo a qual empreendedores constroem oportunidades a partir dos recursos, conhecimentos e relações que já possuem, testando possibilidades e ajustando caminhos. É uma dinâmica próxima do esporte: testar, medir, corrigir e tentar novamente.
A carreira esportiva também produz ativos que vão além do desempenho competitivo. Conhecimento, reputação, rede de relacionamentos, audiência, marca pessoal e experiência podem se transformar em negócios, produtos, serviços, mentorias, palestras ou conteúdo.
Esse movimento já aparece no mercado. O Comitê Olímpico Internacional mantém o Athlete365 Business Accelerator, voltado ao desenvolvimento de competências empreendedoras para atletas. Na edição de 2025, mais de 800 atletas participaram das etapas iniciais. A Deloitte também aponta um mercado esportivo cada vez mais conectado a tecnologia, mídia, dados e novos modelos de receita.
Essa construção conjunta tornou as duas primeiras Masterclasses relevantes. Em vez de partir apenas do que faltava aos atletas para empreender, começamos pelo que eles já possuíam. Cada história compartilhada revelava uma competência: competição se transformava em tomada de decisão; recuperação em resiliência; patrocinadores em negociação; gestão de carreira em planejamento e estratégia.
No fim, não estávamos apenas ensinando empreendedorismo para atletas. Estávamos reconhecendo, junto com eles, que muitas competências necessárias para construir novos caminhos já fazem parte de suas histórias.
O desafio agora é transformar esse repertório em capacidade empreendedora, combinando competências comportamentais, conhecimento técnico, leitura de mercado e experimentação.
Porque uma carreira pode começar no esporte sem necessariamente terminar nele.
Referências:
DELOITTE. 2026 Global Sports Industry Outlook. [S. l.]: Deloitte Insights, 2026. Disponível em: https://www.deloitte.com/us/en/insights/industry/technology/technology-media-telecom-outlooks/sports-industry-outlook.html. Acesso em: 14 set. 2026.
INTERNATIONAL OLYMPIC COMMITTEE. Athlete365 Career+: Business Accelerator. Lausanne: International Olympic Committee, 2025. Disponível em: https://img.olympics.com/images/image/private/fl_attachment/primary/ta3mdy5mqdmxakymp98i.pdf. Acesso em: 14 set. 2026.
MASSIERA, Bernard; BOURSE, Marjorie. Entrepreneurship and career transition of elite athletes: the role of universities in supporting dual careers and successful post-sport integration. Frontiers in Sports and Active Living, [S. l.], v. 8, art. 1864840, 2026. DOI: 10.3389/fspor.2026.1864840. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/sports-and-active-living/articles/10.3389/fspor.2026.1864840/full. Acesso em: 14 set. 2026.
SARASVATHY, Saras D. Causation and effectuation: toward a theoretical shift from economic inevitability to entrepreneurial contingency. Academy of Management Review, [S. l.], v. 26, n. 2, p. 243-263, 2001. DOI: 10.5465/amr.2001.4378020. Disponível em: https://journals.aom.org/doi/10.5465/amr.2001.4378020. Acesso em: 14 set. 2026.
VIDAL-VILAPLANA, Alberto; GONZÁLEZ-SERRANO, María Huertas; CRESPO-HERVÁS, Josep. Exploring elite athletes’ entrepreneurial intentions: unraveling the impact of high-level sports career in skills development. International Entrepreneurship and Management Journal, [S. l.], v. 21, art. 42, 2025. DOI: 10.1007/s11365-024-01037-6. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s11365-024-01037-6. Acesso em: 14 set. 2026.
WORLD ECONOMIC FORUM. The Future of Jobs Report 2025. Geneva: World Economic Forum, 2025. Disponível em: https://www.weforum.org/publications/the-future-of-jobs-report-2025/. Acesso em: 14 set. 2026.
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*LUCAS LIMA - Empreendedor e especialista em inovação e Inteligência Artificial, com atuação em startups, deeptechs, desenvolvimento empresarial e políticas públicas. Fundador da Infill Pesquisa e Desenvolvimento e criador do projeto João de Barro, foi reconhecido como MIT Innovators Under 35, Young Global Changer, Young Leader e BeyGood.
Atuou no Sebrae for Startups e na Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, onde foi Diretor de Empreendedorismo. Atualmente é Especialista em Inovação Empresarial na Firjan IEL, desenvolvendo iniciativas voltadas à inovação, transformação digital e aplicação de Inteligência Artificial nos negócios.
**Lucas Lima foi professor da Masterclass de Empreendedorismo do Afroesporte Fund 4.





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