top of page

Depois do pódio, começa outra prova: transição de carreira não pode ser improviso

Existe um momento silencioso no esporte que quase ninguém filma.


Não é o hino. Não é a medalha. Não é o “choro de superação”. É quando alguém (um médico, um treinador, um dirigente, o próprio corpo), diz: “acabou.”


E aí começa uma prova que não tem tabela, não tem calendário, não tem torcida. A prova de continuar existindo quando o esporte para de te nomear.


Nos últimos anos, esse assunto deixou de ser tabu de bastidor e começou a virar pauta pública de verdade no Brasil. O Ministério do Esporte lançou o Programa Excelência para a Vida, com foco em planejar a transição de carreira e apoiar a “dupla carreira” (conciliar esporte com formação acadêmica/profissional e trabalho). 


O COB também estrutura suporte via o Programa de Carreira do Atleta: Núcleo de Atletas em Transição (PCA Transição), voltado a apoiar atletas no processo de passagem para o pós-alto rendimento.


E a Câmara avançou na discussão de educação financeira obrigatória no contexto esportivo, via PL 3151/2025, justamente porque o risco do improviso não é abstrato: ele vira boleto, ansiedade, perda de patrimônio e vulnerabilidade.


O que isso sinaliza? Um deslocamento cultural: o país começa a tratar o atleta como trabalhador de alta performance, com carreira curta, riscos altos e transição inevitável.


Mas ainda tem um problema: a conversa costuma nascer tarde demais. A maioria começa a planejar “depois”, quando o depois já chegou.


O mapa real dessa conversa: por que transição virou tendência (e urgência)

Quando a gente mapeia os temas que estão “em alta” no esporte agora, a transição aparece no cruzamento de quatro forças:


  1. Política pública e governança: programas e planos dedicados à transição e à dupla carreira estão ganhando forma institucional.

  2. Dinheiro e proteção: o debate legislativo sobre educação financeira mostra que o sistema reconhece uma lacuna estrutural. 

  3. Saúde mental: o COB lançou curso gratuito sobre saúde mental no esporte, e o próprio Comitê Olímpico Internacional trata transição de carreira como fator importante de risco/pressão psicológica.

  4. Identidade e sentido: estudos apontam que a transição costuma ser vivida sem planejamento integrado e que o “fim” mexe com múltiplas camadas (emocional, social, profissional). 


Esse é o ponto central: transição não é só “arrumar um emprego”. É reorganizar vida, identidade, rede, renda e narrativa, tudo ao mesmo tempo.


O que faz a transição doer tanto (e por que não é culpa sua)

A transição é difícil por motivos que o esporte raramente verbaliza:


  • Carreira curta + identidade intensa: o esporte ocupa tudo: agenda, corpo, amigos, autoestima, rotina. Quando sai, parece que leva junto uma parte do “quem eu sou”.

  • Ausência de plano integrado: há trabalhos acadêmicos no Brasil apontando que a pós-carreira frequentemente não tem um plano organizado que considere várias dimensões da vida do atleta e isso produz vulnerabilidade.

  • Efeito emocional real: estudos e revisões sobre término de carreira mostram incidência relevante de tristeza e outras emoções difíceis no momento da transição, não porque o atleta é fraco, mas porque a vida muda abruptamente.


A transição dói porque, muitas vezes, ela não é só “mudança de trabalho”.Ela é luto de identidade + mudança de renda + mudança de rede + mudança de rotina, tudo de uma vez.


Saúde mental na transição: o que ninguém quer dizer (mas todo mundo vive)

No alto rendimento, você é treinado para “aguentar”. Só que transição exige outra habilidade: cuidar do que está ruindo por dentro enquanto você recomeça por fora.


O COB, por exemplo, lançou um curso gratuito sobre saúde mental no esporte: uma forma de colocar ferramentas na mesa, em vez de só exigir força.


O Comitê Olímpico Internacional também trata transição de carreira como um dos fatores que podem impactar o bem-estar psicológico.


Tradução prática: se você está ansioso, triste, irritado, perdido, com medo do “depois”, isso não é frescura. É um sinal de que você precisa de estrutura, e isso inclui suporte emocional.


O papel de marcas, clubes e patrocinadores: legado mensurável, não slogan

Se você é marca/patrocinador, aqui vai um choque de honestidade: patrocinar só performance é curto prazo. Patrocinar permanência é legado.


O caminho já está desenhado em políticas e programas: transição, capacitação, dupla carreira, saúde mental, educação financeira.


Na prática, isso vira investimento em:


  • bolsas de estudo e trilhas de formação 

  • mentoria de carreira e acesso a rede

  • educação financeira aplicada à realidade do atleta

  • suporte de saúde mental 

  • media training e construção de narrativa


Onde entra a AFROESPORTE

A AFROESPORTE nasce exatamente nesse ponto: presença para existir, preparação para permanecer e futuro para transformar. Se a carreira esportiva é intensa e curta, o pós-carreira precisa ser planejado e protegido.


E se o esporte, historicamente, empurrou muitos atletas negros para a lógica do “se vira nos 30”, então a transição vira também uma pauta de justiça: ninguém deveria depender de sorte para permanecer.


Se você é atleta e leu até aqui, guarda isso:


  • o pós-carreira começa agora

  • dupla carreira é estratégia

  • transição é identidade + rede + narrativa + saúde

  • dinheiro é proteção, não vaidade

  • pedir suporte é maturidade, não fraqueza

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page