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Corpos Trans e o retrocesso da COI



A trajetória de quem atua na Educação Física e na gestão esportiva costuma ser pautada pela premissa de que o esporte é a ferramenta ideal para tornar o corpo um lugar habitável. No entanto, após mais de 15 anos de atuação entre a musculação, a corrida e a coordenação de projetos de aceleração de carreiras, compreendi que para a comunidade LGBTQIAPN+ da qual faço parte a prática esportiva vai muito além do bem-estar: ela é, antes de tudo, um ato de existência.


Essa realidade se materializou para mim de forma avassaladora quando atuei como treinador de corrida do coletivo Trans no Corre — um grupo de corrida de rua liderado por pessoas trans e focado na inclusão e na ocupação de espaços através do esporte. Essa experiência transformou minha visão profissional. Ali, no asfalto, deparei-me com demandas que as planilhas de treino tradicionais insistem em ignorar: o medo do olhar julgador nos parques, a dificuldade em encontrar vestimentas que respeitem corpos em transição e a luta diária pelo simples direito de ocupar o espaço público com segurança.


O Determinismo Biológico na Elite do Esporte


Enquanto combatemos essas barreiras no cotidiano, o esporte de elite caminha na direção oposta, tentando ditar regras excludentes que reverberam diretamente na base.


Recentemente, o Comitê Olímpico Internacional (COI) oficializou resoluções que restringem a participação de atletas trans baseando-se em critérios genéticos rígidos.


A alegação institucional baseia-se no argumento do impacto da puberdade masculina e, fundamentalmente, na presença dos cromossomos XY. Ao estabelecer a biologia genética como um veredito final e uma suposta "vantagem eterna", o COI reduz a identidade e a capacidade de um atleta a um par de cromossomos, tratando o corpo humano como uma estrutura estática e imutável.


Quando o COI foca apenas em cromossomos, ele ignora a capacidade de transformação do corpo humano e chancela um preconceito que desce das Olimpíadas direto para os territórios onde o esporte acontece.


No entanto, a própria ciência desmente essa visão determinista. Estudos de vanguarda publicados no British Journal of Sports Medicine (BJSM) comprova que a fisiologia humana é plástica. Os dados demonstram que, após um período adequado de terapia de afirmação de gênero (terapia hormonal), marcadores fisiológicos cruciais, como a massa muscular e os níveis de hemoglobina reduzem drasticamente, atingindo valores equivalentes aos de mulheres cisgênero. Em termos práticos, o "motor" do atleta se ajusta à sua nova realidade hormonal.


Inclusão não é Caridade, é Estratégia de Gestão


Como coordenador na Afroesporte, defendo diariamente que não existe desenvolvimento mercadológico ou esportivo real se ele for excludente.


Projetos esportivos que abrangem e acolhem a comunidade LGBTQIAPN+ não devem ser encarados como 'caridade'; eles são, fundamentalmente, uma estratégia de gestão.


Ao desenharmos programas que validam e protegem esses corpos, combatemos a evasão esportiva e promovemos saúde pública. A diversidade no esporte gera inovação, fomento econômico e novas lideranças. Se não oferecermos o suporte necessário para que esses atletas e profissionais existam hoje, não teremos um mercado de trabalho esportivo sustentável amanhã.


Para isso, a gestão precisa ser feita sob a lente da interseccionalidade, compreendendo as especificidades do atleta que é preto e trans, por exemplo. Isso é administração esportiva de verdade.


O Futuro do Esporte se Constrói na Ponta


Que a nossa "Saúde Transgressora" seja aquela que não aguarda a permissão ou a validação de uma federação internacional para agir. Se as instituições insistem em fechar as portas dos pódios, cabe a nós — na ponta, nas periferias, nos centros e em todos os bairros — escancarar as portas da saúde, do esporte e do pertencimento.


Minha vivência com o Trans no Corre me ensinou que, quando uma pessoa trans corre, ela está reivindicando o direito de ser livre. O compromisso coletivo que devemos assumir é o de que nenhum corpo será deixado para trás. O esporte é resistência, o esporte é vida, e ele pertence a todos nós.


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Weder Pires

Gestor de Projetos, Educador Físico e Coordenador na Afroesporte. Atua na aceleração de carreiras esportivas e no desenvolvimento de programas de impacto social.

 
 
 

3 comentários

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Regis Nogueira moreno
há 3 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Arrebentou,texto sensacional, necessário e extremamente potente. Traz uma reflexão profunda, com muita sensibilidade e coragem ao abordar o corpo trans e o retrocesso do COI. Parabéns pelo conteúdo e pela forma brilhante como conduziu essa discussão 👏🏿👏🏿

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Anderson Reis
há 3 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Isso foi muito além de palavras.

Foi sobre existência, pertencimento, corpo, identidade e coragem.

Falar sobre um corpo trans e um corpo preto ocupando espaços, principalmente no esporte, é falar sobre resistência, sobre quebrar silêncios e sobre o direito de simplesmente existir sem precisar pedir permissão.

Dá pra sentir cada camada de vivência e reflexão em cada linha.

Obrigado por transformar algo tão necessário em algo tão potente.

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Rafaela
há 3 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Você tem uma habilidade incrível de transmitir informação de qualidade sem deixar a escrita técnica, pesada ou cansativa. Dá pra perceber claramente o quanto domina o assunto, com um olhar atento, crítico e muito consciente, mas o mais legal foi a forma como conseguiu transformar tudo isso em uma leitura leve, interessante e fácil de entender.

E, sinceramente, ler esse artigo só me fez ter ainda mais certeza do profissional maravilhoso e do ser humano incrível que você é. Só orgulho!!

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